Uma nova arquitetura do Poder Global: BRICS, ASEAN e OCX
O amanhecer de uma nova ordem mundial multipolar
Uma Nova Arquitetura do Poder Global: BRICS, ASEAN e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX).
I. Introdução: O Amanhecer de uma Nova Ordem Multipolar
O tabuleiro geopolítico mundial passa por uma transformação profunda, com a emergência de uma ordem multipolar que desafia a hegemonia ocidental capitaneada pelo império estadunidense. Na última cúpula do BRICS/2025 o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, indicou o caminho por onde corre essa realidade: “Vejo esta conferência sob uma luz mais positiva. Não estamos aqui para reclamar ou lamentar aqueles que acreditam em ações unilaterais – tarifas, protecionismo. Aqui, levantamos uma voz pelo multilateralismo, pela colaboração. Trabalhamos com países do Sul, mas ainda nos engajamos com países do Norte como amigos nesta nova aliança”.
No discurso de encerramento do mesmo evento o presidente brasileiro, Lula da Silva, externando sua felicidade pelo êxito da 17ª Cúpula também percorreu esse caminho: “E é por isso que a gente está discutindo com muita profundidade a necessidade de mudança estrutural, inclusive no Estatuto da ONU, para que a gente possa recriar alguma coisa com base nos acontecimentos geopolíticos de 2021 e não de 1945”. E mais: “Aquele mundo ficou para trás. Só os saudosistas daquele mundo – do nazismo, do fascismo – são outros que não estão no BRICS. No BRICS, a gente quer fortalecer o processo democrático, o processo multilateral. A gente quer a paz, o desenvolvimento e a participação social”.
Na insurgência dessa nova ordem multipolar ganha destaque as ralações bilaterais entre as nações e, principalmente, na consolidação e fortalecimento de Blocos Geopolíticos, Geoeconômicos, Parcerias Estratégicas e de Plataformas Colaborativas.
Nesse contexto considero que o BRICS, a ASEAN e a OCX estão no centro dessa reconfiguração, representando novas formas de interconexão e refletindo a crescente influência do Sul Global na redefinição das relações internacionais.
Aqui exploro como esses blocos, individualmente e por suas interconexões, estão construindo essa nova arquitetura de poder global.
II. Os Pilares da Reconfiguração Global: a força de cada Bloco
A. BRICS: de agrupamento econômico a plataforma geopolítica
Expansão e Alcance: A primeira grande expansão do BRICS iniciada em 2023 (Joanesburgo), confirmada em 2024 (Kazan) e concluída em 2025 (Rio de Janeiro), que incluiu a adesão de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia, elevou sua representatividade para mais de 49% da população mundial, 38% do território e aproximadamente 40% do PIB global (PPP).
Movimento Estratégico da Indonésia: A entrada da Indonésia em janeiro de 2025, insere-se como uma jogada de profundo alcance no tabuleiro geopolítico por conectar o BRICS diretamente com a ASEAN estabelecendo a ponte entre os blocos do Sul Global. Some-se a isso a importância não apenas em recursos naturais, mas também em sua posição geográfica estratégica no Indo-Pacífico.
Objetivos Reformistas: Grande parte dos especialistas avalia que o BRICS evoluiu para uma plataforma geopolítica que busca reformar a governança global, com prioridades na cooperação Sul-Sul e no desenvolvimento social reafirmada sob a presidência brasileira em 2025.
Além disso há uma definição do “espírito BRICS” voltado para o respeito e compreensão mútuos, igualdade soberana, solidariedade, democracia, abertura, inclusão, colaboração e o consenso que está intrinsicamente “linkado” aos objetivos e compromissos gerais do grupo.
Esse “espírito” reflete o posicionamento estratégico que tem guiado o bloco de preservação da paz, desenvolvimento e segurança que ajudem no progresso da humanidade e o estabelecimento de um mundo equitativo e justo.
Desdolarização e o NDB: Gradualmente avança debates e iniciativas que visam mitigar o poder e o uso coercitivo do dólar. A Declaração do Rio de Janeiro/2025, em seu parágrafo 65, expressa: “Reconhecemos os benefícios generalizados de instrumentos de pagamento transfronteiriços mais rápidos, de baixo custo, mais eficientes, transparentes, seguros e inclusivos, baseados no princípio de minimizar barreiras comerciais e de acesso não discriminatório. Acolhemos o uso de moedas locais em transações financeiras entre os países do BRICS e seus parceiros comerciais. Encorajamos o fortalecimento das redes de bancos correspondentes dentro do BRICS e a viabilização de liquidações em moedas locais em linha com a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS (BCBPI), que é voluntária e não vinculativa...”.
Nesse sentido enfatiza o papel fundamental do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, sigla em inglês) – o “Banco do BRICS” -, “como agente robusto e estratégico de desenvolvimento e modernização no Sul Global”. (parágrafo 45 da declaração citada).
B. ASEAN: a centralidade Estratégica e a Neutralidade Ativa no Indo-Pacífico
Posição Geográfica Única: A ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) composta por Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Singapura, Tailândia e Vietnã controla rotas marítimas vitais, como o Estreito de Malaca, por onde passam mais de 94 mil navios/ano, transita 25% a 30% do comércio marítimo mundial, conferindo-lhe um papel essencial nas cadeias de suprimentos globais.
Poder Econômico: Tem um PIB conjunto superior a US$ 3,7 trilhões, representando a 5ª economia do mundial, e mais de 650 milhões de habitantes que o consolida como centro fundamental nas cadeias globais de valor.
Todos os membros da ASEAN participam do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, sigla em inglês) proporcionando-lhes parcerias estratégicas caracterizadas por múltiplas dimensões de cooperação.
Estratégia Diplomática: No documento de criação, aprovado em agosto de 1967, em Bangkok/Tailândia, foram consignados seus objetivos e princípios “... cooperação nos campos econômico, social, cultural, técnico, educacional e outros, e na promoção da paz e estabilidade regionais por meio do respeito permanente pela justiça e pelo Estado de Direito e da adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas “.
Definindo por uma "neutralidade ativa" ou "multi-alinhamento" que permite à ASEAN beneficiar-se das rivalidades entre grandes potências sem ser arrastada para confrontos diretos, como a proposta malaia de participação chinesa na Cúpula ASEAN-Conselho de Cooperação do Golfo.
C. OCX: O Gigante Eurasiático e sua Agenda Expandida
Dimensão e Abrangência: A Organização para Cooperação de Xangai (OCX) é a maior organização regional do mundo em termos de escopo geográfico e populacional, cobrindo aproximadamente 70% da Eurásia e quase metade da população mundial.
A arquitetura conta com10 países membros (Belarus, Cazaquistão, China, Índia, Irã, Paquistão, Quirquistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão), 2 países observadores e mais 14 considerados parceiros de diálogos e a ASEAN participando como convidada.
Evolução da Agenda: Inicialmente focada no combate aos "três males" (terrorismo, separatismo e extremismo), a organização expandiu sua agenda para incluir cooperação econômica, energética e tecnológica.
Impacto do Irã: A adesão do Irã em 2023 causou grande impacto, trazendo a segunda maior reserva de gás natural do mundo e fortalecendo o controle da Organização sobre recursos energéticos estratégicos.
III. A Rede de Interconexões: Fortalecendo o Sul Global
Sobreposição de Membros: Uma das características mais notável desse tabuleiro diz respeito a sobreposição entre essas organizações criando uma teia complexa interconectada. Rússia, China, Irã, Índia e Belarus participam tanto do BRICS quanto da OCX. A Indonésia, Malásia, Tailândia e o Vietnã estabelecem ponte direta entre BRICS e ASEAN. Há também que destacar que a presença do Brasil, Bolívia e Cuba (BRICS) proporciona diálogos com a Comunidade dos Estados Latino-americanos e do Caribe (CELAC), assim como África do Sul, Egito, Etiópia, Nigéria e Uganda fortalecem laços com a União Africana (UA).
Estratégia Deliberada: Esta sobreposição não parece ser acidental, mas uma estratégia deliberada para criar redes institucionais complementares que fortaleçam a influência coletiva do Sul Global, funcionando como "círculos concêntricos" de poder que se reforçam mutuamente.
Crescimento do Comércio Sul-Sul: O comércio entre os blocos tem crescido exponencialmente. No caso particular do Brasil o comércio em 2024 com o BRICS somou US$ 102, 5 bilhões e de US$ 24,4 bi com a ASEAN.
Mecanismos de Coordenação: Importante registrar que novos mecanismos de coordenação vão emergindo, como a proposta russa de aprofundamento da cooperação entre ASEAN, União Econômica Eurasiática (UEE) e OCX, criando plataformas para coordenação política em organismos multilaterais como a ONU e o G20.
IV. Desafios e Respostas no Caminho da Multipolaridade
Divergências Internas: O BRICS enfrenta a crescente heterogeneidade e desafios na tomada de decisões por consenso devido à diversidade de regimes políticos, interesses econômicos e desconfianças políticas entre algumas nações, a exemplo da China e Índia.
Complexidades Regionais da ASEAN: A organização lida com desafios como a crise em Myanmar e as tensões no Mar do Sul da China, precisando equilibrar seus princípios de não-interferência com a pressão internacional. Recentemente Tailândia e Camboja entraram em conflito com a alegada “disputa de território” precisando da mediação da Malásia para chegarem a um acordo de cessar fogo.
Pressões de Potências Tradicionais: Potências ocidentais respondem com estratégias de contenção, incluindo ameaças e imposição de tarifas por parte do presidente estadunidense Donald Trump contra o BRICS particularmente China, Rússia, Irã, Brasil e a Índia e militarização no Indo-Pacífico, buscando limitar a influência desses blocos.
V. Conclusão: Rumo a um novo Equilíbrio de Poder
Em Síntese:
As interconexões entre BRICS, ASEAN e OCX são mais do que arranjos de conveniência. Trata-se dos pilares emergentes de uma nova arquitetura de poder global que desafia e vai remodelando o sistema criado pós 2ª Guerra Mundial.
Trata-se de uma rede de governança alternativa, que reflete o desejo do Sul Global de ter mais autonomia e influência, e está se formando por meio de sobreposições de membros, grandes players como a China, com coordenação política e cooperação econômica crescente.
Juntas essas organizações possuem um potencial transformador significativo. Representam a maioria da população mundial, detém uma infinidade de recursos naturais e uma capacidade de oferecer modelos alternativos de desenvolvimento e governança que podem alterar profundamente a dinâmica das relações internacionais
As evidências sugerem que, apesar dos desafios, essas interconexões estão se fortalecendo, criando novas realidades geopolíticas às quais as potências tradicionais lutam desesperadamente para derrubá-las, usando de mecanismos estranhos ao ordenamento jurídico das intuições criadas por eles mesmos.
O tabuleiro geopolítico do século XXI será, inevitavelmente, definido pela capacidade dessas organizações de transformar aspirações de multipolaridade em realidades institucionais duradouras.
Carlos Albérico de Medeiros
Editor do Canal M65
Youtube.com/CanalM65
Consultei: 1. BRICS Brasil - Português (Brasil) // 2. Homepage - ASEAN Main Portal // 3. Organização de Cooperação de Xangai | 上海合作组织 | A organização de cooperação de Xangai




Tão bom que me auto obriguei a salvar para ler novamente, e… mais de uma vez!